sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Gris

"Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios"
Cruz e Sousa


Vejo no alto a fumaça,
Que se espalha fraca...
De um cinza faiscante,
Faz malabarismos com meus olhos.
Expande-se fabulosamente
E se fecha imponente.
Fortalece-se de toda a luz do dia,
De toda a alegria e fantasia.

Meu corpo treme de frio
E me sinto sufocar.
No fundo da alma sinto uma fúria
Quando ouço uma fraca criança chorar.

E por um momento a encontro
E de súbito tudo se desfaz.
Dissolvo-me no vento
E me perco no tempo
— opaco, simples, estátua.

Melodia do mundo

"The harp the monarch minstrel swept,
The King of men, the loved of Heaven,
Which Music hallow'd while she wept
O'er tones her heart of hearts had given,
Redoubled be her tears, its chords are riven! "
Lord Byron

Ouço uma melodia que surge à minha volta,
Que inunda meu peito, meu corpo, minha alma.
Harpas e flautas e a terra tremia aos meus pés!
Dançando comigo o vento rodava e a lua cantava.
Lá longe os negros davam cambalhotas,
Alegres com a música que libertava seus espíritos
Daquelas correntes antigas enferrujadas.
Perto deles os brancos choravam e caíam, um após o outro,
Morrendo e matando e morrendo e chorando.
E os índios dançavam chamando Tupã,
Que dos céus chorava seu pranto e sua alegria
E sob a chuva éramos todos um, éramos todos brasileiros.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Ispaã

Terei sempre tempo para amar
Quando partir daqui a Ispaã.
Aqui vivo sem passado,
Lá viverei sem amanhã.
Velejarei por mares furiosos
E enfrentarei bestas mitológicas.
Darei até meu sangue em sacrifício
Para chegar a Ispaã.

Lá terei o meu harém
E jogarei o Jogo do Xá.
Lá eu serei alguém
Livre para amar.
Beberei dos mais velhos vinhos
E ouvirei as mais belas melodias.
Terei sempre muito ouro
Para queimar na boemia.

E quando, enfim, me cansar
De tantos prazeres e regalias
Voltarei à minha terra de origem,
Ao meu pranto e à minha discreta simpatia.
Passarei os dias sonhando
Mas nunca mais sentirei tristeza,
Porque terei sempre tempo para amar
Quando partir daqui a Ispaã.

Malungo

Poeta malungo, que sabe de tudo,
Não tema o futuro
Que arde nas costas.
Veja o horizonte, detrás e defronte,
Que nunca revela o segredo da noite.

Poeta malungo, filho do mundo,
Não seja sisudo
Que a vida é uma arte.
Veja que o sol nasce pra todos,
Mas a noite só para nós.

Poeta malungo, sem lenço e sem rumo,
Não olhe pra trás
Que o mundo é desnudo
E a verdade crua dói demais,
Mesmo que dita por um companheiro.

Poeta malungo, esconde teu fumo,
Não chores assim
Que tristeza sem fim
É a chave do coração do mundo,
E o tesouro é segredo entre malungos.