quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sereia

Triste sereia dos olhos d’água
Não deixe que eu me perca
Na sua mágoa.

Despoetismo

Eu mando na palavra
E ela me obedece,
Escrita no papel.
Sua vingança é depois,
Quando ninguém me entende.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mentiras

Mentiras que correm nas veias,
que andam nos cantos
contando a verdade.
Mentiras que dormem na areia,
que nadam no rio
são só vaidade.

Mentiras que contam sereias,
que contam as pessoas
com muita maldade
se perdem nos próprios cabelos,
nos próprios venenos,
na realidade.

Mentiras que vivem sozinhas,
que andam em bandos
despidas e frias.
Mentiras que causam discórdia,
que criam desordem
são fracas e pias.

Mentiras, escritas borrradas
que contam piadas,
com falsos risos.
Mentiras que zombam das leis,
corrompem os reis
e matam o povo.

São tantas que ouço nas ruas
ferindo a si mesmas.
São tantas que ouço de bocas
sangrando de medo.

E atrás da maquiagem
e do nariz vermelho
o palhaço brincalhão
chora em desespero.

domingo, 1 de março de 2009

Carvão

“Todo es hermoso y constante,
Todo es música y razón,
Y todo, como el diamante,
Antes que luz es carbón”
José Martí


Peguei um pedaço de carvão
E quebrei-o em três.

Com o primeiro pedaço
Fiz um belo diamante
Que refletia a luz da lua
Em um majestoso arco-íris.

O segundo queimei até que
Só restasse a brasa,
Mais macia que o veludo e que
Se dispersa no vento levando
Os meus sonhos.

E com o último pedaço
Eu risquei minha parede
E escrevi um poema
De mais pura inocência.

Mas eu sabia que não poderia
Guardar os três.

O primeiro era duro e frio
E seu brilho me aumentava
A ganância, ofuscando
Minha visão do mundo.

O segundo se desmanchava
Em meus dedos e me dava
Uma falsa sensação de prazer.

Peguei, então, o último pedaço
E deixei-o no chão para que quem por ali passasse
Também o usasse para escrever
Um poema sincero.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Vou-me embora pra Brasília

Em homenagem a Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Brasília
Lá sou amigo do Presidente
Lá tenho o carro que quero
E um cargo de gerente.

Em Brasília tem tudo
É outra civilização
Tem um processo parado
Que impede a moralização
Tem chuveiro automático.
Tem dinheiro à vontade.
Tem secretárias bonitas
Para a gente contratar.

E quando estiver mais pobre
Mais pobre de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de viajar
Lá sou amigo do Presidente
Terei o carro que quero
E um cargo de gerente.
Vou-me embora pra Brasília.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Idade

Se eu fosse velho,
Velho de muitos anos
E tivesse vivido tanto
Que me chamassem sábio,
Minha barba de prata
E os meus olhos fundos
Seriam apenas gotas
No oceano profundo
Da minha alma.

E com outros olhos
Eu veria o mundo.
Com meus dedos trêmulos
Tocaria a grama molhada
E sentiria o seu cheiro.
Ouviria o chiar do vento
E eu seria mais do que isso.
Não seria mais velho,
Porque seria algo que nem o tempo
É capaz de definir.

Neoconcretismo

Poesia concreta
É um grafite
No muro da biblioteca